terça-feira, 10 de novembro de 2009

Marco Suassuna

Estudo comparativo em habitação de interesse social: O caso do Conjunto Habitacional Gervásio Maia (CHGM) - João Pessoa-PB (1)
Marco Antonio Suassuna Lima
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“... na busca de um caminho de substituição da produção repetitiva e massificada por uma produção habitacional e urbana personalizada e caracterizada”. (2)
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Este artigo refere-se às questões de planejamento urbano, de arquitetura e de urbanismo em habitação de interesse social e algumas breves considerações sobre atuação governamental na matéria são discutidas. Pretende a partir da realidade cotidiana, estabelecer comparações com um estudo de desenho urbano elaborado na mesma área de intervenção do referido conjunto habitacional, visando evidenciar as implicações de um partido urbanístico-arquitetônico equivocado. Assim, dados comprobatórios e simulações de cenários tridimensionais auxiliarão o entendimento entre os dois casos, sendo um real e o outro hipotético. Tais comparações são mais de caráter didático do que a confirmação da espacialidade ideal, mas são notórios os ganhos alcançados com o novo ensaio propositivo aqui mostrado.
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Como exemplo o artigo aborda o caso do Conjunto Habitacional Gervásio Maia (CHGM), situado na periferia sudoeste de João Pessoa-PB, que foi construído pelo Poder Municipal em parceria com o Governo Federal para minimizar o déficit habitacional do município. 1336 habitações unifamiliares foram entregues desde dezembro de 2007. Os contemplados foram famílias que sobreviviam em acampamentos de lonas, em prédios invadidos e parte de movimentos sociais organizados. O loteamento está dotado de saneamento básico, equipamentos comunitários como Unidade de Saúde da Família (USF), escola, creche, quadra e ginásio esportivos e praças. Segundo dados da Secretaria Municipal da Habitação - SEMHAB, o valor total da obra foi de R$ 24.070.130,4 sendo R$ 8.643.997,18 do Governo Municipal e R$ 15.426.133,22 do Governo Federal.
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Como veremos, apesar dos esforços e da inegável contribuição social, alguns aspectos foram negligenciados, tanto de planejamento territorial, quanto de reeducação e transformação sócio-espacial que bairros desta natureza carecem, evidenciando a importância da reflexão crítica para as futuras ações governamentais na temática.

Fig.1: Localização do Conjunto Habitacional Gervásio Maia em destaque. Fonte: Secretaria de Planejamento da PMJP – Geoprocessamento
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A escolha deste (CHGM) para as discussões aqui realçadas deve-se, também, pelo fato do mesmo ter sido premiado pelo Governo Federal no ano de 2008, o que desperta curiosidade em saber quais motivos levaram a tal reconhecimento. No portal da Prefeitura Municipal de João Pessoa a Caixa Econômica Federal (CEF), apontou este empreendimento, como o mais completo conjunto habitacional no país financiado pelo Governo Lula.
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O Condomínio Residencial Gervásio Maia, empreendimento da Prefeitura de João Pessoa (PMJP), está entre os dez melhores projetos habitacionais do Brasil. O título foi conferido pelo 'Selo de Mérito', um reconhecimento oferecido pela Associação das Companhias de Habitação Nacional. A entrega da comenda foi na última quarta-feira (23), em uma solenidade no Hotel Ritz, em Maceió, e contou com a presença do Ministro das Cidades, Márcio Fortes, e do vice-presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Hereda. (3)

Fig.2: Vista aérea do CHGM em destaque. Fonte: Secretaria de Planejamento da PMJP – Geoprocessamento
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Do ponto de vista urbanístico, o CHGM apresenta na sua concepção a anacrônica repetição de casas térreas individualizadas e enfileiradas com reduzido aproveitamento do solo. A reflexão que podemos fazer neste momento é se tal modelo de conjunto habitacional conferiu mérito ao CHGM, será que, pelo que ensina a história da arquitetura e urbanismo modernos no tema, o conceito de habitabilidade involui? Eis a problemática que pretendemos investigar e provocar o debate.
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Antes, porém relaciona o fato local ao nacional, reconhecendo a complexidade da crise habitacional nas cidades brasileiras, cujas origens remontam a passagem do Brasil rural para o urbano, do Brasil arcaico para o industrial, assim Maricato (2001) relata que:
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“O Brasil, como os demais países da América Latina, apresentou intenso processo de urbanização, especialmente na segunda metade do século XX. Em 1940, a população urbana era de 26,3% do total. Em 2000 ela é de 81,2%. (...) Trata-se de um gigantesco movimento de construção de cidade, necessário para o assentamento residencial dessa população bem como de suas necessidades de trabalho, abastecimento, transportes, saúde, energia, etc”. (4)
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Contextualização e precedentes
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De modo geral, o processo histórico de urbanização do município de João Pessoa ocorreu de forma desordenada, seletiva e excludente. A priorização de investimentos em áreas mais valorizadas em detrimento das áreas carentes aumentou as desigualdades ao longo dos anos.
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Segregação sócio-espacial e ineficiência de políticas governamentais para a provisão de equipamentos e serviços públicos de qualidade, somados ao aumento do déficit habitacional, agravaram a situação desde os anos 70 do século XX. Os reflexos deste quadro são vistos na paisagem urbana evidenciados pelos assentamentos precários e irregulares por todo perímetro urbano, situados não somente nas regiões periféricas, mas também nos espaços intra-urbanos e intersticiais do município. Como conseqüência, ricos e pobres convivem lado a lado no espaço urbano, mas em condição desigual de habitabilidade.
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Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, de 2000, revelavam que a população de João Pessoa era de 597.934 habitantes. Destes, mais de 120.000 habitantes viviam em assentamentos inadequados e segundo projeção daquele ano, 126.120 pessoas habitariam em condições precárias de moradia no ano de 2006 com uma população estimada de 672.000 habitantes distribuídos em 211 Km². O déficit habitacional em 2006 era de 18,76% da população, aí incluídos tanto a necessidade por novas moradias (aspecto quantitativo) quanto as de melhora das já existentes (aspecto qualitativo). Em relação à carência específica por novas moradias, mais de vinte e três mil cidadãos pessoenses estavam nesta estatística. Hoje, esse número é maior e grande parte dessa população ocupa áreas de proteção ambiental, loteamentos clandestinos e demais ocupações espontâneas, resultando no cenário predatório da cidade informal e real dentro da cidade oficial. Na Paraíba, em média, 90% do déficit se concentra nas famílias que ganham até três salários mínimos.
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Conjuntura e o partido urbanístico-arquitetônico do CHGM
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Segundo dados citados, o déficit habitacional na cidade de João Pessoa cresce em progressão geométrica, isto significa que as ações para construções de habitações sociais devem ser planejadas não só em termos quantitativos, mas, sobretudo nos aspectos qualitativos da produção espacial. É, portanto um problema territorial, cujas implicações sócio-espaciais, físico-ambientais de determinadas intervenções repercutem não só na escala local, mas inevitavelmente na escala do território citadino. Nesta conjuntura, cresce a importância do melhor partido urbanístico-arquitetônico a ser adotado, sob pena de subutilizar o solo e a infra-estrutura instalada e de desperdiçar recursos públicos investidos. Além destes fatores, diante da crescente demanda por moradias para população carente, parece óbvio a racionalização do solo a partir da verticalização, sem contar na grande dificuldade de desapropriação, por conta dos órgãos governamentais, de terrenos planos e em condições favoráveis econômica e topograficamente para implantação de casas populares econômicas.
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De certa forma, a área em questão, apesar de estar situada na periferia e pelas circunstâncias da cidade-mercado, é considerado um achado pelos urbanistas locais e com grande potencial, se bem planejada, para futuras intervenções no campo da habitação de interesse social. No caso do CHGM, o sítio escolhido possui 30 hectares (ha) de área, uma topografia predominantemente plana, situada na periferia sudoeste e vizinho ao loteamento Colinas do sul, cujos acessos se dão ou pelo bairro Costa e Silva ao oeste ou pelo conjunto Valentina Figueiredo ao sudeste.
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Fig.3: Foto panorâmica de um trecho do CHGM em construção. Março de 2007. Fonte: Secretaria Municipal da Habitação-SEMHAB
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Enquanto partido adotado, o solo foi parcelado rompendo a lógica do entorno de quadras ortogonais no sentido leste-oeste, inclinando as quadras em ângulo de 45º em relação às quadras dos loteamentos vizinhos. Em relação ao desenho do solo urbano, este segue a reprodução da quadra convencional, apresentando formatos retangulares e relação desproporcional entre uma grande quantidade de espaço privado (uso habitacional) em contraposição a fragmentados espaços livres e públicos (praças e equipamentos comunitários), habitualmente destinados para restos de parcelas do solo que cumprem os famosos 15% do código de urbanismo municipal - Art. 89 (...) da superfície a ser loteado o mínimo de 10% serão destinados a praças e jardins públicos e 5% para equipamentos comunitários. Nota-se uma grande área de vias locais o que acarretou em alto investimento, embora muitas destas ainda estejam sem calçamentos, deixando para o futuro, por parte da prefeitura, as pavimentações destas, o que dificilmente ocorre num curto espaço de tempo. Essa desproporcional quantidade de vias para veículos é visivelmente paradoxal num bairro de baixa renda com poucos moradores proprietários de carros particulares.
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Fig.4: Mapa da malha viária do CHGM. Acima, na quadra triangular no centro, os equipamentos comunitários
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Fig.5: Delimitação dos limites com varas de madeira. Foto de Marco Antonio Suassuna Lima tirada no dia 24 de janeiro de 2009
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Fig.6: Delimitação dos limites com varas de madeira. Na outra foto, casas ainda sem muros e já abandonadas. Foto de Marco Antonio Suassuna Lima tirada no dia 24 de janeiro de 2009
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Outra ausência observada no CHGM foi a não previsão de áreas comerciais o que acarretou, em pouco tempo, na proliferação de botecos, mercearias e fiteiros desordenadamente espalhados nos espaços deste empreendimento. Geralmente estes comércios não têm sustentabilidade devido à localização imprópria e a falta de atração de venda dos seus produtos.
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Como mencionado, foram implantadas 1336 unidades numa área de 30ha resultando numa densidade ocupacional bruta (incluindo vias, praças e áreas livres) de 178.13 habitantes/ha, e líquida de 331 ha/ha valor considerado baixo para esse padrão habitacional segundo os especialistas (5).
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Fig.7: Comércios improvisados. Opção empírica pela falta de espaços comerciais no desenho urbano. Foto: Marco Antonio Suassuna Lima
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Fig.8: Vista dos equipamentos comunitários (Escola e Ginásio esportivo) do CHGM respeitando a parcela mínima do loteamento conforme o código de urbanismo. Apesar da inegável contribuição, a quantidade destes equipamentos é subdimensionada para uma população de mais de 5000 pessoas, considerando áreas de abrangência do entorno imediato. Fotos: Marco Antonio Suassuna Lima
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Fig.9: Implantação do Conjunto Zezinho Magalhães Prado, anos 60 de Vila Nova Artigas e Paulo Mendes da Rocha
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Influências pertinentes e as implicações de um desenho urbano equivocado
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A respeito da densidade urbana, implantação e tipologia a serem adotadas no estudo de desenho urbano, recorremos à historiografia da habitação social brasileira e a alguns exemplos dos anos 40 e 50, com renomados arquitetos modernos citados por Bonduki (2004), como por exemplo, Attílio Corrêa Lima e Carlos Frederico Ferreira, calcado nas idéias de progresso, e nas tipologias igualmente modernas produzidas pelos IAPs (Instituto de Aposentadoria e Pensões), que buscava unir arquitetura e urbanismo nas concepções projetuais.
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Corrêa Lima, de fato, realizou verdadeiro proselitismo a favor da construção de conjuntos habitacionais renovados e do projeto moderno de cidade. Segundo ele, no célebre livro de Bonduki (2004)
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“(...) A casa isolada recai no velho sistema de quintal, depósito de velharias, com aspectos áridos e sórdidos dos terreiros que (...) lembram o pijama e o chinelo dos domingos (imagens do velho, de um modo de vida arcaico), ao passo que as construções feitas em série, formando conjuntos densos, apresentam as mesmas vantagens da produção industrial em massa, baixam o custo unitário permitindo elevar o padrão da unidade da habitação e criam o parque coletivo de grandes proporções (...), com uma vida social diferente, com campo de esporte junto à porta, que trará o gosto pela camisa esporte”. (6)
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Fig.10: Foto do Conjunto Zezinho Magalhães Prado
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Apesar da ácida crítica nos anos 40 a casa isolada, este discurso revela a tentativa, através da habitação econômica, da transformação social que passaria os usuários do estilo de vida rural e arcaico para o moderno e industrializado.
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Observando de forma sistêmica para a realidade contemporânea da capital paraibana, as famílias que poderiam ser contempladas no desenho urbano, mas não foram por falta de planejamento e adequado partido, irão se juntar as demais excluídas e buscar abrigo de maneira informal em outras áreas impróprias, pressionando o meio ambiente e o crescente risco social, ambiental e urbano. Ou seja, mais lixos serão jogados em terrenos baldios, mais águas dos rios serão poluídas pelos despejos de esgotos, mais desmatamentos irão surgir e mais violência urbana irá agravar o quadro já alarmante da cidade de João Pessoa.
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É claro que o déficit habitacional é enorme e vem de décadas atrás, mas as ações governamentais podem ser mais criteriosas, evitando imediatismos e planejando os investimentos em curto, médio e longos prazos. Do contrário, os custos indiretos derivados das ocupações desordenadas tais como saúde, segurança pública, trabalho e transportes, entre outras, ultrapassam os custos diretos de investimentos em terras já urbanizadas e devidamente articuladas com os benefícios sociais da vida urbana em áreas mais centrais, por exemplo.
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É preciso considerar também outras modalidades de acesso as moradias populares, que não se restrinjam à construção de novas unidades em bairros periféricos (como o caso em questão), ampliando a oferta com a possibilidade de reabilitação em prédios desabitados nos centros urbanos consolidados, aproveitando a infra-estrutura existente e a facilidade de transportes coletivos.
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“Os custos do habitat informal para a cidade são altos. Vão desde um aumento do número de enfermos nos hospitais aos impactos ambientais e da contaminação nas zonas ocupadas irregularmente, passando pela necessidade de instalar infra-estrutura e levar serviços públicos a locais pouco adequados. Os efeitos negativos dos assentamentos afetam as áreas vizinhas, depreciando as propriedades e provocando a sua deterioração” (7).
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Quando a opção for para a construção de novas moradias às famílias que ganham até três salários mínimos (maior parcela do déficit), a intervenção deve ser ousada e compatível com a demanda, o que não ocorreu com a tímida intervenção do CHGM, apesar das 1336 unidades parecerem muito.
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As possíveis alternativas de desenho urbano mais viável em contraponto ao paradigma dos loteamentos anacrônicos governamentais
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Para contrapor o modelo ainda vigente dos loteamentos governamentais em habitação social é necessário reforçar os seus aspectos negativos. Desta forma, as principais características do paradigma dos loteamentos anacrônicos são:

* incapacidade de proporcionar qualidade de vida a maioria dos usuários;
* desperdício e subutilização do solo urbano pela tipologia individual térrea;
* subutilização da infra-estrutura instalada;
* não contribuição com o desenho qualificado da paisagem;
* prioriza, na configuração espacial, mais o transporte individual com mais vias locais nos espaços internos dos loteamentos em detrimento de vias para pedestres capazes de promover áreas de convívio coletivo;
* aumento no custo de execução do sistema viário pelo excesso de vias locais;
* não prevê áreas para geração de emprego e renda no desenho urbano;
* nivela por baixo as provisões de equipamentos comunitários, cumprindo pura e simplesmente a legislação hermética vigente;
* reproduz ambientes urbanos sem identidade, massificado e que contribui muito pouco para a auto-estima dos moradores.
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As causas desses efeitos se encontram na prática tecnocrática do “planejamento” urbano, no pragmatismo, na pouca ou nenhuma valorização do ofício do arquiteto-urbanista, e na ausência da participação popular nesse processo. De praxe, só se faz o mínimo, não há o entendimento de que se estar construindo cidade e promovendo relações sociais. É urgente adotar alternativas de desenho urbano a partir de uma mudança de postura do partido e o necessário reconhecimento da arquitetura e urbanismo para a transformação positiva, sobretudo em bairros carentes. O estudo propositivo propõe essa mudança e se embasa na dimensão coletiva como sua justificativa maior. Considera que o contato mais franco para com as áreas públicas, com multiplicidade de usos nas áreas da intervenção pode contribuir para a vitalidade dos espaços cotidianos (ver cenários tridimensionais e implantação geral).
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No CHGM, facilitado pela configuração espacial individual do pedaço de terra, e pela cultura do medo, lotes estão sendo fechados por muros altos, e o uso habitacional restrito nas quadras conforme os preceitos do monofuncionalismo refletem a paradoxal realidade dos pobres se protegendo dos pobres. Além do mais, as estreitas calçadas, as elevadas áreas de vias automotoras locais somadas a falta de áreas sombreadas também não contribuem ao encontro, nem às brincadeiras das crianças nas calçadas, e, portanto, nem a segurança.
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Lamentavelmente, este paradigma de negação do espaço público é sistematicamente verificado não só nos bairros de classe alta e média-alta, mas nos de baixa renda também, a exemplo do caso em questão.Talvez motivados por legislações urbanísticas obsoletas, talvez por inércia da população em aceitar sem se questionar se não há outra maneira de apropriação espacial, ou talvez ainda pela hegemonia do urbanismo tecnocrático nas gestões municipais e estaduais.
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Esta configuração espacial da apropriação individual do lote é uma tentativa distorcida de impor, nos bairros populares, o modo de vida das classes sociais mais abastadas, que vivem em moradias isoladas por altos muros e segurança eletrônica, ou seja, uma valorização excessiva do privado. Por outro lado, as famílias usuárias dos conjuntos habitacionais de baixa renda valorizam a dimensão coletiva, o espaço público, a integração. Unir tal dimensão com áreas de lazer e espaços para geração de emprego e renda é um caminho adequado frente a uma classe desempregada e excluída do mercado de trabalho formal, que são a maioria dos usuários.
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Além disso, a história da habitação popular nos mostra que não basta entregar o empreendimento, é preciso um trabalho social de conscientização antes, durante e depois das obras a respeito de como conservar os espaços coletivos, num entendimento mais completo de cidadania, onde tanto os órgãos públicos quanto a população tem direitos e deverem a cumprir. Da manutenção do ambiente construído depende a sinergia entre o poder público, população e demais agentes sociais cooperados com a causa citadina, todos atores sociais do fato urbano.
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Portanto, para encarar tal situação é proposta uma readaptação da relação público-privado, considerando um desenho urbano mais democrático e com co-responsabilidades intrínsecas. Desta forma as opções do bom desenho pode ser pela quadra aberta tal qual sugere Jáuregui:
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“(...) estes pontos de articulação com o contexto, definidos a partir da leitura da estrutura do lugar, conjugam aspectos programáticos, infra-estruturais, socioeconômicos e paisagístico-ambientais, com uma concepção de cidade-aberta / quarteirão-aberto. Integra atividades comerciais, culturais e de lazer junto com as residenciais, desde uma concepção generosa do que pode ser pensado hoje como características positivas da urbanidade, da vida associativa e de novos paradigmas de relacionamento público-privado, individual-coletivo” (8).



Fig.11: Habitacão Sustentável em aço - Living Steel. Projeto vencedor de concurso em Recife, em 2008. Andrade e Morettin Arquitetos Associados
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Fig.12: Habitacão Sustentável em aço - Living Steel. Projeto vencedor de concurso em Recife, em 2008. Andrade e Morettin Arquitetos Associados
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Fig.13: Conjunto Habitacional Bouça, Porto - Portugal, 1973-1977. Autor: Álvaro Siza.
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O partido urbanístico-arquitetônico proposto: entre a cidade modernista, a tradicional e a contemporânea

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O partido adotado segue uma intenção conceitual aberta e flexível, incorporando valores do urbanismo moderno, tradicional e contemporâneo. Dos conceitos modernistas prevalecem a implantação laminar ou pavilhonar dos edifícios, as áreas verdes intercaladas com o uso residencial, mas nega-se o monofuncionalismo, a separação estrita das funções e a supervalorização do automóvel ditando o desenho urbano. Da cidade tradicional incorpora-se a valorização da rua, sobretudo das calçadas, do uso comercial no térreo e a redução das distâncias. Da contemporaneidade evidencia-se a polifuncionalidade, a diversidade tipológica e a interatividade entre os espaços públicos e privados.
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Sendo assim, das pesquisas de projetos correlatos modernistas dos anos 40 a 60, da observação do entorno, dos costumes dos usuários, além de algumas intervenções contemporâneas referenciais, surgiu o partido urbanístico-arquitetônico aqui proposto. O respeito à escala do pedestre, priorizando o passeio e fluxo seguros dos usuários, com o trânsito dos veículos automotores controlados por vias perimetrais as quadras, além da variedade, oportunidades múltiplas, e dinâmica volumétrica foram às principais prerrogativas projetuais consideradas. Respeitando os ciclistas e a alternativa de transporte não poluente, foi proposto uma ciclofaixa que percorre toda a extensão longitudinal da área, sugerindo a sua continuidade com o entorno. As figuras 11, 11 e 13 representam parte significativa destas influências.
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Fig.14: Implantação geral (hipotética) do estudo de desenho urbano para o CHGM.
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Portanto, a implantação proposta segue em função da quadra aberta com blocos residenciais paralelos e alternados entre si.
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“A quadra aberta é por essência um elemento híbrido conciliador. Permite a diversidade, a pluralidade da arquitetura contemporânea. Ela recuperar o valor da rua e da esquina da cidade tradicional, assim como entende as qualidades da autonomia dos edifícios modernos. A relação entre os distintos edifícios e a rua se dá por alinhamentos parciais, o que possibilita aberturas visuais e o acesso mais generoso do sol. Os espaços internos gerados pelas relações entre as distintas tipologias podem variar do restritamente privado ao generosamente público, sem desconsiderar as nuances entre o semipúblico e o semiprivado” (9).
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Fig.15: Via de pedestres entre os blocos habitacionais. Estudo de desenho urbano para o CHGM.
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Optou-se também pela verticalização leve e repetição movimentada na implantação com duas tipologias de blocos residências que se alternam, um com apartamentos no térreo e em mais três pavimentos superiores, o outro de casas geminadas com unidades nos dois pavimentos. Neste último, os semi-blocos das habitações geminadas expressam um movimento graças aos avanços e recuos e a mudança de direção dos acessos. A cada quatro unidades tem-se o acesso para uma via de pedestre, no seguinte muda-se o mesmo para o lado oposto, desta forma a vitalidade nos tráfegos de pedestres é dividida e equilibrada ao mesmo tempo. Nas extremidades dos blocos dos apartamentos, tem-se a possibilidade da inserção de comércio sem nenhum prejuízo plástico de tais edificações. (Fig. 15)
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A implantação das edificações também respeita as condicionantes de conforto ambiental, pois os ventos predominantes sudeste permeiam entre os blocos residenciais locados no sentido leste-oeste. Nestas faces, as fachadas são cegas, resultando em nenhuma unidade com frente para o sol poente nocivo da tarde, como ocorre na cidade de João Pessoa-PB e região do nordeste brasileiro.
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Fig.16: Inserção no contexto urbano existente. Estudo de desenho urbano para o CHGM.
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Fig.17: À direita, cenário virtual mostrando a combinação das duas tipologias. Estudo de desenho urbano para o CHGM.
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Praças, áreas verdes e de lazer somadas com a sustentabilidade ambiental
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As áreas de lazer foram concebidas de forma descentralizada, com praças, playgrounds e jardins espalhados no mini parque urbano com cerca 2 ha de área, nas áreas livres e com equipamentos favoráveis as várias faixas etárias como crianças, jovens, adultos e idosos.
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Nestas áreas, bancos, playgrounds, mesas de jogos, ciclovia, pista de cooper, spiribol, quadras esportivas, pista de skate (ralf), bancas de revistas, fazem parte do rol de equipamentos e mobiliários urbanos favoráveis a animação urbana. Além destes, no limite sudoeste da área de intervenção um centro de reciclagem (possibilitando gerar renda) e um núcleo de educação ambiental visam promover a mudança de comportamento e conscientização frente à problemática global da sustentabilidade ambiental. Arborização e gramados foram sugeridos por toda área de intervenção, pois além de favorecerem a sombra e amenização climática, contribuem para a estética urbana. Recomenda-se a plantação de árvores nativas que se adéquem ao clima quente-úmido.
.Fig.18: Mapas temáticos Público x Privado. A cor preta representa o espaço público e a cinza os equipamentos comunitários. Situação hipotética
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Fig.19: Mapas temáticos Público x Privado. A cor preta representa o espaço público e a cinza os equipamentos comunitários. Situação existente
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A necessidade da comparação

Para evidenciar as discrepâncias nos aspectos quantitativos e qualitativos entre os dois casos foi necessário recorrer aos dados comparativos e a algumas simulações de cenários espaciais da situação hipotética. O quadro a seguir ilustra este aspecto e as diferenças, reveladas nos números, dos partidos adotados.
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Considerações finais

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Iniciamos as reflexões neste artigo colocando a seguinte questão: se tal modelo de conjunto habitacional Gervásio Maia (CHGM) recebeu um prêmio do Governo Federal, será que, pelo que ensina a história da arquitetura e do urbanismo modernos no tema, o conceito de habitabilidade retrocedeu? Acredito que a resposta está na permanência do modelo central-desenvolvimentista (10) cujas ações ainda são centradas nas decisões tecnocráticas do poder público nas esferas federal, estadual e municipal, contradizendo com as determinações da gestão democrática do Estatuto da Cidade-Lei federal 10257.
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“De acordo com o inciso II do artigo 2°, a gestão democrática da cidade como diretriz geral da política urbana está prevista da seguinte forma:
Art. 2°. A política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana, mediante as seguintes diretrizes gerais:
(...)
II - Gestão democrática por meio da participação da população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano (...)”.
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Não só na Paraíba, mas em vários estados do país ainda estão sendo construídos conjuntos habitacionais massificados, onerosos, monótonos na paisagem e desarticulados com o tecido urbano do entorno. As principais razões são:

* excessivo pragmatismo dos órgãos governamentais supervalorizando a questão “quantitativa” e exposição política em detrimento da face qualitativa e do planejamento urbano;
* desarticulação entre Secretarias de Planejamento, da Habitação, do Meio Ambiente e de Desenvolvimento Social, que tomam providências paliativas após as obras ao invés de prever no processo de planejamento a relação sistêmica entre urbanismo, habitação social, meio ambiente e cidade;
* desconsideração da participação popular durante a concepção, elaboração e definição do desenho urbano nos bairros populares;
* comodismo em adotar as mesmas tipologias em vários bairros e comunidades, independente das especificidades espaciais, culturais, paisagísticas, topográficas e ambientais, porque o caderno de especificações já está pronto e os projetos complementares também;
* pouca ou nenhuma articulação entre os poderes governamentais com o saber erudito das instituições de ensino superiores nos cursos de arquitetura e urbanismo, engenharia civil, geografia, sociologia, serviço social, entre outras;
* centralização da gestão;
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Procuramos ilustrar com breves fatos históricos, dados numéricos e simulações espaciais que para combater o modelo ainda hegemônico dos conjuntos habitacionais anacrônicos é necessário pensar a cidade e seus problemas intrínsecos de forma compartilhada, tendo a descentralização e co-participação em projetos estratégicos como sendo indispensável para a gestão urbana (11).
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Diante a complexidade dos problemas urbanos e do reduzido corpo técnico das prefeituras, parece inteligente e necessário unir o conhecimento dos órgãos governamentais com os saberes eruditos da academia para amenização da crise habitacional e em prol da urbanidade coletiva.
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Enfim, para as intervenções em bairros carentes são essenciais utilizar das ferramentas projetuais da arquitetura e do urbanismo como intrínseco ao planejamento urbano. Na prática, deve ser considerada a valorização estética das tipologias arquitetônicas, a provisão de espaços de lazer, serviços, postos de trabalhos e geração de renda preferencialmente próximo do local da moradia, evitando grandes deslocamentos e de acordo com princípios da cidade compacta sustentável, do contrário se pode estar construindo “favelas projetadas” nas periferias das cidades. Sem a pretensão de ser o ideal, o estudo de desenho urbano propositivo aqui mostrado nunca será construído, e nem foi esse o intuito, mas foi preciso utilizá-lo para reforçar os argumentos, realçar as conseqüências nocivas de um partido equivocado e para embasar as críticas que possam contribuir para a devida visibilidade nos circuitos de discussão urbana local e nacional.
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Notas
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1. Colaboraram na parte gráfica dos mapas temáticos e das simulações espaciais presentes neste artigo, os estudantes de arquitetura e urbanismo Luciana Magalhães, Orcina Fernandes, Raquel Figueiredo e Saulo Leal, além do escritório ACRO.

2. COELHO, António Baptista – infohabitar blog, post “Mais e melhor habitação, mais e melhor cidade” de 16 de Março de 2008. Disponível em: . Acessado em jan. 2009.

3. JOÃO PESSOA. Prefeitura Municipal de João Pessoa. Caixa revela: 'Gervásio Maia' é o núcleo habitacional mais completo. Disponível em: . Acessado em 29 jan. 2009.

4. MARICATO, Ermínia. Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana / Ermínia Maricato. Petrópolis Vozes, 2001.

5. “(...) para cada caso específico se deve estudar a densidade econômica ou ótima, levando-se em conta o nível e o gênero de vida da população, a estrutura ecológica da cidade e, sobretudo, o custo unitário dos equipamentos urbanos. Deve-se, dentro da realidade local, adensar ao máximo a população urbana. No Brasil, parece que a densidade econômica situa-se entre 250 e 450 habitantes por hectare (densidade residencial bruta média)”. In: FERRARI, Célson. Curso de Planejamento municipal integrado. 2.ed. São Paulo: Pioneira, 1979
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A densidade econômica aqui citada é a bruta, o que confirma o baixo número do caso em estudo, ainda mais quando analisado por uma ótica sistêmica do déficit habitacional, onde a falta de habitações para a população mais pobre num primeiro momento irá repercutir, logo em seguida, em problemas sócio-ambientais num curto período de tempo.
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6. BONDUKI, Nabil. Origens da habitação social no Brasil: arquitetura moderna, lei do inquilinato e difusão da casa própria. 4. ed. São Paulo: Estação Liberdade, p.141, 2004.
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7. BRAKARZ, José. (organizador). Cidades para todos: a experiência recente com programas de melhoramentos de bairro. IDB Bookstore - BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento, 2002.
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8. JÁUREGUI, Jorge Mario. Prêmio Caixa / IAB 2004 – Concurso Nacional de Idéias para Habitação Social no Brasil (categoria profissional) Disponível em: . Acessado em 12 de março 2006.
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9. FIGUEROA, Mário. Habitação coletiva e a evolução da quadra. Disponível em: . O artigo aborda interessante discussão sobre habitação coletiva e os problemas decorrentes da densidade populacional urbana das grandes cidades durante o século XX, e o processo projetual modernista para enfrentar essa questão.
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10. BONDUKI, Nabil. Habitar São Paulo: reflexões sobre a gestão urbana – São Paulo: Estação Liberdade, 2000. No capítulo 01, página 17, o autor confronta o modelo central desenvolvimentista que desde o Estado Novo tem orientado a ação do Poder Público nas cidades com a postura ambiental-participativa, mais democrática e descentralizadora do ponto de vista da gestão urbana.
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11. Neste processo democrático de gestão urbana, o concurso de idéias para projetos arquitetônico-urbanísticos em áreas estratégicas da cidade ainda é uma grande ferramenta de planejamento quando articulado com os órgãos governamentais, instituições de ensino e o Instituto de Arquitetos do Brasil-IAB nas suas respectivas seções estaduais, na formulação do edital do concurso.
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Marco Antonio Suassuna Lima, arquiteto e urbanista pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco FAUPE, docente do Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ, mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA. Entre 2005 a 2008 foi assessor da secretaria de habitação da prefeitura municipal de João Pessoa-PB
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11 comentários:

  1. É fato que o nosso poder público ainda não busca por em prática discussões e estudos embasados a partir de pesquisas realizadas pelos poucos profissionais capacitados no qual ele próprio contrata e remunera para realizá-lo.
    É importante continuarmos com esse discurso sério e coerente, rompendo com o poder público quando necessário, em busca de explanarmos a verdadeira função do arquiteto e urbanista, o pensar a cidade a partir da sua realidade local e jamais nos contentarmos em reproduzir soluções “padrão” tecnicamente fáceis e "economicamente viáveis" que beneficiam somente a gestão pública e aos construtores que as implantam.
    É bom saber que temos pensadores práticos como você representando nosso estado!
    Parabéns pelo trabalho desenvolvido.

    Davi de Lima

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  2. Algumas coisas me incomodam profundamente nesse estudo. Acho Louvável a atitude de se debruçar enquanto técnico sobre as produções do poder público e criticá-las utilizando-se dos nossos embasamentos teóricos, conceituais, práticos e urbanísticos, também não posso deixar de me solidarizar com a inconformidade do projeto do Gervásio Maia que não atende a uma boa implantação, nem a uma integração da comunidade, equiparando-se aos modelos já ultrapassados de conjuntos habitacionais da era BNH.
    Entretanto,não posso deixar de discordar de certos aspectos apresentados neste estudo e até em alguns projetos correlatos citados no mesmo.
    Para mim, criticar uma produção massificada e padronizada, típica dos modelos de gestões públicas que visam economia e facilidade, e apresentar como solução algo esteticamente melhor, urbanisticamente melhor, mas socialmente e conceitualmente insípido não é algo que se possa aceitar.
    Esta, como tantas outras propostas parecem atender ao que a sociedade acha que é o porblema desses moradores e não realmente ao que eles consideram essencial.
    Qualquer olhar mais apurado sobre este projeto nos remeterá muito mais a um estilo de vida de condomínio de classe média do que as ocupações de interesse social.
    Precisamos repetir os mesmos erros que eles? Não! Mas temos o direito de impor um estilo de vida, de cultura, de morar, de conviver que não se aplica a realidade de seus moradores? Acredito que também não.
    Penso que as boas soluções urbanísticas para conjuntos de interesse social partem elementarmente de conhecer a fundo a organização interna dessas comunidades, de se inspirar nos seus modos de vida, nos seus padrões estéticos, respeitar suas lógicas de ocupação ao máximo, sua organização complexa, e sua paisagem característica.
    Meu questionamento é: Ao propor brincadeiras volumétricas com janelas coloridas, ao propor casas que alternam entradas, edifícios que não solucionam o espaço dos animais, das carroças, que não respeitam as lógicas de vizinhanças, etc etc etc estamos criando uma produção habitacional "personalizada" e "caracterizada" para quem???
    Temo por nossa categoria, por sermos intitulados de sonhadores, utópicos, estéticos, superficiais...
    Talvez essas atribuições venham dessa nossa ânsia de repudiar o pragmatismo com veemência e em troca não buscar soluções às raízes da questão.
    Encontramos o bolo podre e nos conformamos em acrescentar uma cereja e chantilly.

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  3. Cara Juh,
    Agradeço o comentário, pois é sempre bom ouvir outras opiniões contrárias, enriquece o debate e aprofunda variáveis no tema. Porém, esclareço que o presente artigo foi publicado no site Vitruvius, passando por uma banca examinadora e que não é utópico e superficial.Tem validação científica.

    A respeito da solução, em nenhum momento foi apontada no estudo a solução ideal e sim apresentado outra alternativa, chamada reflexão propositiva, com dados comprobatórios e simulações espaciais que evidenciam a melhora no âmbito coletivo. É óbvio que intervenções para população de baixa renda devem ser consideradas peculiaridades comportamentais e culturais, todavia, é preciso ter discernimento e eleger as influências positivas e eliminar as negativas. Mas, o que se observa em alguns discursos ingênuos e distantes do universo pobre das famílias carentes, é que estão confundindo respeito cultural com manutenção da pobreza dessas famílias.

    Na sua fala “Ao propor brincadeiras volumétricas com janelas coloridas, ao propor casas que alternam entradas, edifícios que não solucionam o espaço dos animais, das carroças, que não respeitam as lógicas de vizinhanças, etc etc etc estamos criando uma produção habitacional "personalizada" e "caracterizada" para quem???”, representa bem essa corrente da manutenção da pobreza, do Brasil rural arcaico no Brasil moderno. É preciso prover além de moradias dignas melhora nas condições de vida dessas famílias, aumentando o seu poder aquisitivo e dando-lhes um ofício e opções de ter seu próprio negócio. Por isso os boxes comerciais, o centro de comércio e serviços já previsto no desenho urbano.

    Quanto às “brincadeiras volumétricas”, chamo de respeito à identidade arquitetônica e conforme as cores vivas típica da arquitetura vernacular. Já em relação às entradas que se alternam tem haver com movimento nas calçadas e animação nas vias de pedestres, juntamente com usos polifuncionais. Isto é urbanismo, não brincadeira! Você pode expressar sua opinião, mas tenha respeito e tolerância com as diferenças de pensamento.

    Em outro trecho você diz “(...) elementarmente de conhecer a fundo a organização interna dessas comunidades, de se inspirar nos seus modos de vida, nos seus padrões estéticos, respeitar suas lógicas de ocupação ao máximo, sua organização complexa, e sua paisagem característica”. Ótimo, apresente e apareça a público para debatê-la. Porém faço outra ressalva:

    Em outros exemplos correlatos que não estão no artigo há alguns que se assemelham a esta preocupação de se inspirar na autoconstrução espontânea das favelas e na espacialidade típica de tais assentamentos: O Vila da Barca de Luiz Fernando e outros de Demetre Anastassakis. É uma opção, um outro partido, mas cada caso é um caso, não existe receita. Será que numa área de 30 ha tal partido seria interessante na paisagem? Como ficariam os outros usos relacionados com as tipologias justapostas? Lanço o desafio para quem quiser experimentar.

    É preciso levar em consideração para cada caso a demanda, a densidade urbana, o impacto na paisagem, a otimização da infra-estrutura, o custo da terra, questões de conforto ambiental e provisões de equipamentos e serviços associados ao uso habitacional, a legislação incidente, além, é claro, do contato com a população. No caso, o contato com a população não houve por razões operacionais e pelo bom senso adotado. Imagina, faz sentido apresentar as 1336 famílias algo que não vai ser construído para eles?
    É necessário ainda compreender o que significa lógica de ocupação, ou a “estética das favelas” em termos de salubridade, de acessibilidade, de conforto ambiental, comumente verificado em alguns discursos acadêmicos.

    O problema é mais complexo do que parece Juh. O ideal é unir o empírico com o erudito em prol de um consenso possível.

    No mais, o artigo fala por si.
    Marco Suassuna.

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  4. Entendido o foco da minha crítica, de visão completamente pessoal, e não apenas direcionada a sua proposta como a qualquer outra que não respeitasse a essa lógica que me é essencial. Só ressaltaria duas questões que você citou para esclarecê-las com "respeito e tolerância", que eu acredito não terem faltado em todo meu discurso.

    Ao me referir as "brincadeiras volumétricas" utilizei um termo que, pelo menos no meio acadêmico em que convivo, é absolutamente comum, inclusive que eu ouvi de você mesmo em sua própria apresentação do artigo no XIII ENGEARQ.
    A mim, em momento nenhum esse termo soa como um desmerecimento da arte de proporcionar visuais diversas e estimulantes. Brincar com as fachadas nunca foi uma desvalorização em meu conceito e nunca desmereceu o URBANISMO como aparentou em sua afirmação: "Isto é urbanismo, não brincadeira".
    Acho os jogos visuais e formais completamente válidos e o meu pensamento nunca fugiu da lógica de que em específico o partido que você utilizou para “brincar” com as fachadas geram identidades que fogem do MEU conceito, repito: MEU, de que essas intervenções específicas devem valorizar uma inspiração pré-existente.
    Por fim, ressaltar que eu acredito numa visão diferente mais intrínseca a uma realidade que salta ao meu olhar, só me faz pertencer à outra vertente, divergente da sua. Não é uma falta de respeito, não desmerece a complexidade do problema, nem acho que seja uma lógica dual entre erudito e empírico, acho simplesmente que são abordagens diferentes da mesma questão e que cabe a cada um defender seu ponto de vista e seguir seus ideais.
    Longe de querer ser eu a pessoa a comprovar essa idéia, não tenho a pretensão de me julgar capaz de apresentar uma proposta e debatê-la em público, reconheço minha AINDA insuficiente capacidade. Mas acho válido é que todos nós estudantes, desde cedo possamos refletir e nos posicionar criticamente a respeito dos caminhos que queremos seguir. Esse tipo de debate é algo que pouco ocorre em salas de aula, parece que simplesmente aceitamos as visões que nos passam e pouco discutimos à respeito.
    Arquitetos e Urbanistas no mundo todo seguem visões diferentes, buscam soluções divergentes, abordam as problemáticas com olhares opostos, e a máquina que os cria vem de desejos revolucionários, às vezes ingênuos, mas sempre questionadores.
    Refletir nunca é demais, debater também não.
    Que bom que sua proposta se presta a fomentar esse tipo de discussão e que você mesmo esteja aberto a tais debates.

    Espero na minha falta de poder de síntese, ter sido suficientemente clara, rs.
    Atenciosamente,
    Jully Anne

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  5. Caro Marco,

    Li seu artigo no próprio Site do Vitruvius,tenho certeza de que ele tem mérito suficiente para ser aprovado por tal banca. Não me referi em momento nenhum ao seu trabalho como superficial, pelo contrário, um extenso estudo analítico e comparativo completamente LOUVÁVEL, como eu ressaltei no início de minha fala.
    Muito menos seria eu, mera estudante, a criticar a validação científica do mesmo.
    Mera estudante repito, mas ainda com direito de opinião em um blog destinado a isso, eu creio.
    Acredito que fui clara ao expor minhas idéias, ao dizer que sou EU que discordo de certos pontos levantados por seu artigo que desperta debates saudáveis e enriquecedores se levados pelo caminho certo.
    Utilizei expressões como "para mim" "penso que" e "acredito que" para ressaltar que é a mim que sua reflexão não soa bem, ao que EU entendo como sendo essencial à uma boa solução arquitetônica e urbanística para esses casos.
    Minha pretensão nunca foi julgá-lo, porque reconheço sua supremacia acadêmica, apenas manifestar-me contrária, como ainda é meu direito.

    Insisto em comentar algumas passagens de seu discurso, só a título de tréplica, mas espero que você não tome meus comentários como críticos ao seu trabalho e sim como manifestações do meu modo de ver.
    Entendi o caráter propositivo e até questionador de sua proposta e minha única inconformidade foi em relação ao partido que você adotou, que é contrário ao meu "discurso ingênuo e distante do universo pobre das famílias carentes", mas que ainda assim é o MEU discurso e fundamentado em práticas bem sucedidas de arquitetos que acredito eu, também podem ser rotulados de tal maneira, mas que ainda assim fazem um excelente trabalho.
    Não acho que a solução seja a manutenção da pobreza, do universo rural e arcaico, e muito menos acho que buscar na tradição e na cultura dessas classes influências para os partidos arquitetônicos e urbanísticos, seja sinônimo de moradias indignas ou insalubres. Os próprios exemplos citados por você em correlatos que não estão no artigo, como o Vila da Barca, os de Demetre Anastassakis e os do próprio Alejandro Aravena que seguem a linha de respeito às lógicas de ocupação do espaço, representam isto. São exemplos práticos da linha de manifestação do MEU pensamento, que você considera ingênuo, mas talvez não tão distante, visto que você mesmo se referenciou em projetos que se utilizavam desta lógica.
    É óbvio que este partido não precisa ser repetido em todos os casos, e não precisa gerar soluções repetidas em escala, mas o conceito que há por trás deles, o respeito à "cultura de morar" dessas comunidades das mais diversas formas, em volumetrias, ou em incentivos à autoconstrução, na busca de padrões não muito verticalizados, na manutenção de paisagens urbanas mais ligadas aos padrões pré-existentes, são a essência do que eu acho válido ressaltar em qualquer projeto de interesse social.
    Quando falei nesse "respeito" me referia à conceituação do partido e não à participação popular no seu estudo comparativo, à pesquisa direta ou a apresentação do projeto à comunidade, de forma alguma. Ingênua sim, mas Insensata ainda não.
    Essa questão conceitual é completamente ligada ao PARTIDO adotado e em nenhum momento necessita de um estudo mais aprofundado sobre o mesmo, ou fere a necessidade de acessibilidade, salubridade e conforto ambiental, é uma referência, uma inspiração e não uma reprodução.
    [continua...]

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  6. Antes de mais nada quero dizer que na hora de autorizar a publicação de Jully Anne sem querer acabei invertendo a sua ordem. Então lembrem-se de lê-lo a partir da frase "Caro Marco...".

    Confesso um certo entusiasmo com o debate suscitado a partir da publicação deste artigo. Isto denota a pluralidade de percepções a respeito desta instigante temática.

    Pelo que entendi as divergências residem sobre o partido adotado, principalmente no tocante a verticalização e a "rigidez' morfológica do mesmo. No caso da obra de Aravena em Iquique, Chile, a rigidez compulsória e a nudez material da proposta foi econômicamente estratégica e contrabalanceada com os acréscimos ingênuos dos moradores, que fez o papel das "brincadeiras volumétricas".

    O mérito do estudo de Suassuna reside em questionar a reprodução de um sistema de produção habitacional falido, distante das necessidades sócio-cuturais locais e dos conceitos contemporâneos de desenho urbano.

    O ensaio arquitetônico e urbanístico materializa possibilidades, que se não são ideais, pelo menos são infinitamente superiores ao que se apresenta atualmente àquela população.

    Como foi dito por um dos palestrantes no XIII ENGEARQ: "as pessoas precisam saber que tem direito a ter direito".

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  7. Jully Anne, o debate é salutar, só relembro que o "tom" de algumas palavras do primeiro email é que não foi adequado, talvez por essa impessoalidade advinda do teclado, mas enfim... por isso o comentário sobre o devido respeito.
    No mais, me parece que a questão está na percepção da formulação do problema, que gera essencialmente na definição do partido. Por exemplo, nesta temática é preciso saber sobre as possíveis intervenções:
    qual o contexto urbano? A paisagem do entorno, os acessos, a topografia, a demanda, se e em área de expansão urbana ou intra-urbana, se é dentro de favelas, em centros históricos possíveis de serem reabilitados para uso habitaconal, enfim, essas variáveis definem o partido. Não costumo definir minhas decisões projetuais a partir de rótulos conceituais, seja em qualquer tema.Interpreto as variáveis e gosto de discutir e pensar a cidade propositivamente, usando a ferramenta do desenho urbano.
    No âmbito desta temática da habitação social acredito também que a discussão transcende aspectos formais da linguagem mais adequada na inserção da paisagem, do respeito aos hábitos e culturas do morar dos usuários, aspectos importantes sem dúvida, porém é necessário inserir nesta discussão a escala do território, onde intervenções locais repercutirão inevitalmente na escala macro da cidade. Isto é pensar enquanto urbanista, não apenas na escala do privado, mas sobretudo no espaço público/coletivo e na escala urbano-territorial , essa é a questão inevitável a ser enfrentada. No tocante a verticalização ou não, é preciso considerar ainda questões de densidade urbana e enfrentamento do déficit habitacional. Por exemplo, em cidades superpopulosas como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, entre outras, como fica a manutenção da paisagem mais horizontal diante da problemática socioambiental das ocupações informais e precárias? Definir linguagens arquitetônicas mais atraentes a certas conveniências conceituais é de certa forma fácil, difícil é conciliar as variáveis mais sistêmicas. Essa é a nossa luta também. Neste cenário, cabe a nós arquitetos em criar outras noções do morar e considerar a transformação social nessa conjutura. Noutro sentido, em alguns discursos há uma certa conformação de que pessoas pobres não se adaptam a morar em apartamentos. O que elas têm de diferentes das famílias de classe média e alta? É a cultura,será? Bom isso requer mais espaço para ser debatido.
    No mais, respeito a opinião daqueles que pensam a cidade, independente da formação acadêmica, pois cidade advem da palavra grega pólis, que significa cidadãos políticos conscientes do seus direitos e deveres, livres e iguais. Portanto, a sua condição de estudante em nada reduz a sua condição de opinar, pelo contrário, legitima essa condição.
    Que bom seria se nossos governantes tivesse a sua coragem e entusiasmo de debater questões urbanas.

    Atenciosamente,

    Marco Suassuna

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  8. Oliveira, poderia fazer de cada uma de suas palavras as minhas também. O ponto crucial reside justamente nessa "pluralidade de percepções" citada por você e é ela que nos move em prol da defesa dos nossos conceitos.

    Ao Marco, entendo sua reflexão e concordo em certos pontos com ela, apesar de manter minha conceituação divergente e de acreditar que a "percepção da formulação do problema" citada por você ainda não invalida a mesma.

    Ao dizer: " Não costumo definir minhas decisões projetuais a partir de rótulos conceituais" entendo aí porque temos visões tão divergentes quanto a definição de um partido a ser adotado. Eu afirmaria facilmente que não gosto de rótulos formais, mas dos conceituais me consideraria uma adepta. Para mim, o conceito deve ser mantido e a criatividade é que deve exercer o seu papel propositivo. Sempre admirei as correntes arquitetônicas por terem essa capacidade de gerar soluções diversas e ainda agregar produções distintas embasadas em um mesmo ideal.

    A respeito da escala do território, encontro enfim, nosso verdadeiro ponto convergente nesta discussão. Há aí, inúmeras variáveis que ainda precisamos conciliar e nos debruçar, com debates muito mais aprofundados.
    Como bem definiu você, é verdadeiramente uma LUTA, muito mais abrangente do que nossas vertentes distintas de variáveis projetuais, envolve críticas ao nosso planejamento urbano, às nossas políticas públicas, às nossas legislações "avançadas" apenas em tese, a necessidade de reocupação dos vazios urbanos e à inevitável prática da Regularização Fundiária como medida "curativa".
    Só assim, estaríamos no caminho certo para o combate ao déficit habitacional
    cada vez mais preocupante em nosso país.

    Por fim, para não prolongar ainda mais nossos comentários, concluo, certa de que embora adeptos de vertentes opostas ou com formações acadêmicas distintas, ainda buscamos o mesmo ideal, e ele recai na eterna e esperançosa busca por uma cidade mais justa e digna para todos.

    Att,
    Jully

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  9. Conceitos são importantes, rótulos conceituais nem tanto.

    Att.
    Marco.

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  10. vertentes opostas, como eu disse.

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  11. Mais informações sobre este estudo, acessar o site http://www.arqbrasil.com.br/_urb/index1.htm, link urbanismo, conjunto habitacional. Neste discorre sobre a versão projetual da reflexão propositiva em habitação de interesse social: o fato do Conjunto Habitacional Gervásio Maia (CHGM) - João Pessoa-PB.

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