quarta-feira, 16 de maio de 2007

Acácio Gil Borsoi

Residência Cassiano Ribeiro Coutinho
Andressa Matos, Leila Azouz e Priscilla Matos (1)


Fonte: Revista AU 84


Fonte: Revista AU 84


Fonte desconhecida



A residência Cassiano Ribeiro Coutinho localiza-se na Avenida Epitácio Pessoa, nº 1090, bairro da Torre, João Pessoa, Paraíba. Foi projetada por Acácio Gil Borsoi a pedido do primeiro proprietário, em 1958, com a finalidade de criar uma residência para a sua família numa área mais nova e valorizada da capital do Estado.
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A família Ribeiro Coutinho conhecida por sua riqueza oriunda dos engenhos de açúcar já havia construído grandes casas na cidade como a residência na Avenida João Machado. Portanto, como sua família, Cassiano Ribeiro Coutinho, proprietário de grandes extensões de terra nas cidades de Santa Rita, Cruz do Espírito Santo e Sapé – onde foi prefeito duas vezes – construiu uma grande casa na então área nobre da cidade, contratando um arquiteto de renome para projetá-la, Acácio Gil Borsoi.
A obra foi executada pela empresa de engenharia Figueiras e Jucá, com paisagismo de Roberto Burle Marx, foi finalizada em 1958, sendo considerada um marco da arquitetura moderna brasileira em João Pessoa.
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Pelos documentos encontrados, a data da construção é de 1958, no entanto a obra apresenta fortes características modernistas típicas da Escola Pernambucana de meados do século XX que denunciam a sua idade. Sua volumetria, leve e limpa, a forma como os materiais foram utilizados (aparentes), a composição espacial interna (fluidez espacial) e a utilização de elementos construtivos típicos (cobogós, brises e azulejos) proporcionando elegância e simplicidade permitida através do novo arranjo estrutural.
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Ao projetar a casa, Borsoi não levou em consideração apenas os aspectos funcionais, mas também a relação interior/exterior, na filtragem da luz e na vista para o jardim, como pode ser visto na sua implantação com afastamentos generosos dos limites do terreno, dando destaque ao afastamento frontal, diferenciando-se das construções do seu entorno, garantindo continuidade, integração com a natureza, transparência, iluminação e ventilação natural.
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A edificação foi construída em quatro níveis de pisos: o primeiro destinado à área de serviço (dependência de empregada, lavanderia, apoio para a piscina, copa, depósitos e sala de jantar); o segundo nível onde se encontrava a área social da casa, com entrada principal e sala de visitas; o terceiro nível com as áreas sociais íntimas (sala de estar e escritório) e cozinha; e o quarto nível onde se encontrava a área íntima da residência (quartos e banheiros).
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Essa solução, com vários pavimentos, era comum ser adotada em muitas residências modernas, devido à preocupação com a melhor orientação solar e dos ventos, além da qualificação do espaço, sem necessidade de separação com divisórias, permitindo a visibilidade de um nível para o outro e aumentando a fluidez.
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Sendo estruturada em níveis e tendo como característica das suas obras a marcação volumétrica das funções, a residência possui volumetria dinâmica, com áreas assentadas diretamente no piso (primeiro nível) e áreas elevadas por pilotis (quarto nível), hierarquizando os espaços apenas pela visão externa da casa. No interior, a volumetria era sentida pelo arranjo espacial, com espaços generosos, fluentes, rampas de circulação, além do apelo plástico, quase escultural dos grandes vãos, dos balanços, possibilitados pelas facilidades do concreto armado que a estrutura, muitas vezes aparente, passa a ter.
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Uma volumetria tão arrojada só seria possível, se fosse estruturada com a tecnologia que permitisse sua leveza e desenho característico. O concreto armado é um material apropriado para tal finalidade, como fora provado pela construção de Brasília que havia terminado apenas três anos antes do término da construção desta residência. Como era uma estrutura inovadora na cidade, foi deixada aparente como elemento de composição da fachada e da volumetria.
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Os pilares com formas inusitadas, até então, elevavam o bloco dos dormitórios, formando pilotis, e uma viga inclinada unia tal bloco ao social-íntimo, unificando assim a volumetria da residência.
Também estavam presentes, em sua composição, as vedações de alvenaria e de esquadrias, de madeira e vidro, formando painéis que tomavam algumas fachadas, compondo panos únicos, como dizia o lema da fachada livre defendido por Le Corbusier, ritmados, possibilitando uma interação entre interior e exterior por causa da transparência.
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As poucas paredes eram em alvenaria de tijolos cerâmicos, revestidos por diversos materiais, ou em combogós de louça, estes também eram utilizados nas fachadas como grandes painéis cujos revestimentos, de tijolo aparente ou cerâmica amarela, contrastavam com a transparência dos painéis de esquadria e, ao mesmo tempo, com o denso verde dos jardins e o cinza da estrutura de concreto.
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Uma brincadeira proporcionada pelo arquiteto foi a inclusão de uma parede coberta por pedra granítica no interior da casa, que faz a ligação entre os quatro níveis, aumentando assim a noção de interação de interior e exterior.
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O piso, no exterior, foi utilizado como elemento de composição do jardim, sendo feito com pedra granítica ou com granilite. No interior, foram utilizados assoalhos, nas áreas íntimas e sociais, cerâmicas nas áreas de serviço e banheiros e carpete na rampa.
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Acácio Gil Borsoi

Fonte: www.arcoweb.com.br



.Carioca de Engenho Velho, filho de Antônio Borsoi (arquiteto e desenhista), Acácio Gil Borsoi (foto 06) diplomau-se em 1949 pela Faculdade Nacional de Arquitetura.
Antes de se formar, Borsoi já mantinha um escritório com Almir Gadelha e Artur Coelho, chegando a trabalhar com Alcides de Rocha Miranda e Afonso Reidy.
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Em 1951, ao aceitar o convite de Lucas Mayerhofer, mudou-se para Recife, onde lecionou na Escola de Belas Artes de Pernambuco e, em 1959, assumiu, como catedrático, a cadeira de “Composição de Arquitetura”, na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco, influenciando várias gerações de arquitetos nordestinos para uma arquitetura vinculada à problemática regional legitimada pela consciência crítica.
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Em Recife, casou-se pela segunda vez com a arquiteta e artista plástica Janete Costa, com quem convive até hoje e a quem atribui a mudança em seu modo de viver e pensar, além de atuar ao seu lado, na restauração de edifícios históricos.
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A convite do engenheiro Ayrton Carvalho, montou seu primeiro escritório em uma sala, nas dependências do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). Seus primeiros projetos estavam muito ligados à arquitetura de Niemeyer – pilotis e a leveza das formas -, contudo se preocupava com a proporção e harmonia.
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Em sua atuação inicial no Recife, Borsoi fez um ajuste gradual dos princípios modernistas à realidade nordestina, marcada por contrastes sócio- político econômicos, onde a forma cede lugar à proposta arquitetônica mais livre, menos acadêmica, com intervenção construtiva do arquiteto, gerando uma comunicação com o usuário, a cidade, a memória, a mão-de-obra e a cultura locais, onde o arquiteto passa por um processo de aculturação e de releitura dos princípios oficiais do modernismo.
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Seu primeiro projeto moderno no Nordeste foi a casa Lisanel Melo Mota, ainda nos moldes da arquitetura de Jorge Moreira, de Niemeyer, com planos inclinados e chanfrados. Em seguida, iniciou uma série de casas em Recife, João Pessoa, Maceió, Natal e Fortaleza, com uma arquitetura mais livre dessas influências e apropriada à região, marcando uma grande mudança na arquitetura destas cidades.
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Em 1964, Borsoi foi preso em uma missão de arquitetos do IAB a Cuba. Em 1968, abriu o escritório Borsoi Arquitetos e Associados, onde foram incorporados o design, interiores e paisagismo à sua produção.
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Nos seus projetos, sobressaem a luz, volumes e superfícies, a presença de varandas salientes e janelas em relevos, a composição hierarquizada, a volumetria marcada por recortes, silhuetas e cavidades, além de questionar as vanguardas racionalistas da década de 20, uma vez que sua obra reage ao formalismo, busca a espontaneidade e adaptação do edifício aos materiais tradicionais e ao lugar.
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Merecem destaque as obras públicas que assumem um caráter monumental, no sentido de inserção com a paisagem urbana e natural. Os projetos residenciais ocupam importante lugar em sua obra, pois a clientela rica e ansiosa por modernização é a primeira da arquitetura moderna e a principal promotora do arquiteto. Contudo, Borsoi, com o reflexo do aprendizado trazido junto à Escola Carioca e o contato com Lúcio Costa e Affonso Reidy, mostra a preocupação de propor soluções que melhor traduzam as necessidades dos clientes.
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De volta ao Rio de Janeiro, nos anos 80, constrói a própria casa, síntese de sua trajetória, em que assume o papel de cliente. Na construção, basicamente em concreto, utilizou sistema de formas racionalizadas e chapas de compensado resinado de 12 mm, como se fosse um jogo de armar.
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Portanto, as produções recentes confirmam a vocação do arquiteto mutante que constrói um momento da história da arquitetura brasileira do século XX.


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Notas
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1 Este texto foi redigido a partir dos resultados de uma pesquisa realizada pelos alunos do Curso de Arquitetura e Urbanismo/UNIPÊ, Andressa Matos, Leila Azouz e Priscilla Matos , para a disciplina Restauração e Revitalização I, de 2004, sob a coordenação do Prof. Cláudio Nogueira.



Rerências
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BRASIL, Álvaro Vital. 50 anos de arquitetura: Álvaro Vital Brasil. São Paulo: Nobel, 1986.
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AMORIM, Luiz Manuel do Eirado. Delfim Amorim, arquiteto. Recife: Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento de arquitetura, 1991.
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RODRIGUES, Iara. Arte no Brasil. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1986.
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Documento: Acácio Gil Borsoi. IN Revista AU, Vol. 84. São Paulo: PINI, Junho/ Julho, 1999.
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WOLF, José. Arquitetura paraibana, sim senhor. IN Revista AU, Vol. 79. São Paulo: PINI, agosto/ setembro, 1998.
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UFPE, Arquitetura Brasil 500 anos. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2002.
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AMARAL, Izabel e NASLAVSKY, Guilah: Praça Fleming: um conjunto residencial orgânico?. MIMEO.
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AMORIM, Luiz Manuel de Eirado: Modernismo Recifense: uma escola de arquitetura, três paradigmas e alguns paradoxos. MIMEO.



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9 comentários:

  1. Olá Oliveira Jr!

    Sou estudante de arquitetura e é muito bom encontrar um espaço como esse que serve como um multiplicador de conhecimentos em arquitetura, como também um acervo já que aqui na Paraíba é muito difícil encontrar material a respeito da nossa arquitetura. Parabéns pela iniciativa e pelos trabalhos desenvolvidos. =)

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  2. Obrigado pelos gentis comentários Érika. Há de se conhecer nossas raízes para trilharmos caminhos seguros.

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  3. Thalita Bessa Pires19 de abril de 2009 09:31

    olá Oliveira Jr!!

    Sou estudante de Arquitetura da cidade de Goiania e estou fazendo um estudo sobre o arquiteto Acacio Borsoi!Gostei muito deste material, o que aqui é muito dificil encontrar!Me ajudou muito!!!muito obrigada!

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  4. Thalita,fico feliz que o material postado sobre Borsoi lhe tenha sido útil. O maior mérito credito as arquitetas e ex- alunas do Centro Universitário de João Pessoa - Unipê Andressa Matos, Leila Azouz e Priscilla Matos que fizeram a pesquisa e organizaram o texto para uma disciplina do curso de arquitetura e posteriormente compartilharam com o ArqPB.

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  5. Passei hj por lá e vi o muro de lata montado e uma placa anunciando um grande prédio no local,ou seja, adeus bela casa!!!Uma tristeza, mas é com certeza mais um belo projeto que vai ai chão por conta da especulação imobiliária.

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  6. Felizmente trata-se da obra de restauração da residência Cassiano Ribeiro cujo projeto está a cargo do escritório do próprio Borsoi, falecido em novembro do ano passado.
    veja mais detalhes sobre a obra em: http://arqpb.blogspot.com/2009/12/acacio-gil-borsoi.html

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  7. sou filha do atual proprietario dessa bela casa e sempre fui fã de Borsoi e principalmente da casa de "Cassiano Ribeiro Coutinho".

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  8. Que privilégio o seu. Soube que está em curso um projeto de restauração deste imóvel. Trata-se de um patrimônio arquitetônico incalculável.
    Parabéns aos seus pais.

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  9. Bom dia! Gente, a depeito das postagens acima, tenho outro interesse na discussão, como historiadora. Por favor, alguém saberia me dizer quais eram os vínculos familiares entre Cassiano Ribeiro Coutinho e Flávio Ribeiro Coutinho, então governador da PB, quando a casa foi construída. Agraço e saúdo Oliveira Jr pelo debate qualificado, a quem conheci como irmão do meu amigo Ricardo, ao estudarmos no Liceu. Abraço! Neide.

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